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sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

CÓDIGO

tento decodificar
o mistério nos gestos
e frases inteiras
que escorregam

tento limpar as brumas
iluminar
nesta tosca tradução do vivido
e do que virá

penso tanto nos seus enigmas
que os advérbios gritam
e os pronomes sofrem
penso quanto e porque
(tolices)
quando a pele diz que o êxtase
é a pele na pele na pele

pele branca de nuvens
riscos...
códigos matemáticos impressos
na pele branca de nuvens
e a tatuagem em mim
se deixa ficar
sutil
como os grunhidos quase inaudíveis
assim como a alegria

sem mais

27/11/2014

João Lopes Filho
CHAMA

no tempo em que tudo é chama
retinas como balas
tempo de sobressaltos
assaltar o céu
é logo ali na curva

fugas?
só do amor

me escondo
nos seus pensares
me movo
no seu olho opaco
somos chamas efêmeras

a curva sem fim
é logo
ali
e este vento constante
é ameaça
no tempo em que tudo é chama

17/11/2014

João Lopes Filho
(ENTRE)

nos intervalos
existo
no que insiste
em se aninhar aqui

nos parêntesis
sou singular
nas múltiplas faces
de mim

nos intervalos
posso interrogar
e ser ponto continuativo

nos parêntesis
ando em círculos
como advém a poesia

nos intervalos
leio meu nome
e canto toda música

nos parêntesis
posso dipor vírgulas
siêncio
e livros inteiros

nos intervalos
choro e pranteio os fins
digo adeus

nos parêntesis
canto a presença
e a falta sem fim

nos intervalos
sou parêntesis

27/11/2014

João Lopes Filho
PRA MIM

todo dia
ensaio a vida outra vez
faço esforço de poesia

todo dia
há que se apostar de novo
há que se mirar o abismo
há que encontrar os  olhos
e seus mistérios

todo dia
sou eu de novo
outra vez

todo dia
pede decodificação
todo dia
pede corpo e sentidos aguçados
pois a vida inteira se descortina aí

27/11/2014

João Lopes Filho
INVENÇÃO

a tampa de cerveja achada ao acaso
do ocaso do meu quarto
dá acesso ao que se inscreve
neste hoje que demora a passar

presente suave
afagos
e uma noite longa demais
sem horas, minutos ou segundos

na dimensão do que se planta
nos corpos
doce memória
sem cicatriz

o acaso nos trouxe aqui
e parece dizer
das apostas
da imprescindível invenção

27/11/2014

João Lopes Filho
ABRIGO

em meio a goles extensos de utopia
de palavras
que querem decifrar o mundo
de palavras
que engolem  o real
inventamos nosso abrigo
feito de minimalismos
com o máximo de nós mesmos

longe dos murmúrios da cidade
na noite longa que nos funde
o tempo escorre

nos fazemos refúgio
um do outro
e o sol nos surpreende
com as roupas misturadas

26/11/2014

João Lopes Filho
SOBREVÔO

o olho e o pensamento
se embriagam de nuvens
de futuro
qualquer lugar se insinua
sem pés no chão
outra vez os pés me ultrapassam
as nuvens me seduzem
você se ergue como destino

26/11/2014

João Lopes Filho

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

BULA

nem tesoura
nem alicate
nem nada a respeito de mapas

(lembre-se que copérnico
já nos descentrou)

nem lâmpada
nem palavras mágicas
nem signos zodiacais

(lembre-se que Darwin
nos fez descer escalas)

apenas ofereço o nada
onde pode o tudo estar
apenas ofereço passos na areia
castigada pelos ventos
apenas ofereço lápis e papel
para rascunhos
apenas ofereço um vôo
desbussolado
apenas ofereço um antídoto
sem bula

13/11/2014
João Lopes Filho
EXPLOSÃO

o asteróide 2014 UR116
nos ameaça
explodirá sobre nós
sem ódio nem vingança
(mesmo que a NASA antecipe
seus segredos)
ou mudará sua rota
escolherá outro caminho aleatório
margeando outros mundos

o nosso mundo perdura assim,
com ódio e vingança
nós contra nós
e a NASA
não desata nenhum nó
não desata
os nós
não ata nem desata
nenhum de nós

07/11/2014

João Lopes Filho
PRESCRIÇÃO PARA A SEXTA-FEIRA
                                                       Para Alfredo Ferreira de Souza

prescrevo
para as sextas-feiras:
só contemplação de nuvens
e conversar com arfredim,
a almação da alegria
Xô, gavião!

prescrevo
para as sextas-feiras:
pouca lógica
alguma poesia mesmo na prosa
ou prosear com arfredim,
o que se diz “véio”
quando a criança ressoa

prescrevo
para as sextas-feiras:
sábado
e dê bom dia a arfredim
“porque amanhã é sábado”
se quiser lembrar vinícius.

07/11/2014

João Lopes Filho
SONHO

os anzóis se misturam
à massa
do bolo

os anzóis
desejam?
especulam?
se interrogam?

minhas mãos
tocam os anzóis
do sonho
das últimas horas da noite que finda

os anzóis no bolo
são para não esquecer
de encontrar algo
onde não se procura

07/11/2014

João Lopes Filho
PÉS

meus passos seguem velozes
adiante de mim

quando penso
já estão meus pés à frente

sigo sem norte
por momentos
na direção que me apontam meus pés

penso agora
já é passado
os pés já foram

06/11/2014

João Lopes Filho
ASTRONAUTA

advertência:
o porto aqui
está à mercê das tempestades
das águas caudalosas
nem tentar esgrimir um quanto de sossego
tudo está buscando fôlego

tantos planos tantos
órbita plena
a lua hermética dança
e eu, astronauta, percorro o ar
antes que morfeu se apodere da noite
até que um  mundo translúcido
venha lapidar a ilusão

28/10/2014

João Lopes Filho
DECLARAÇÃO

nada declaro
sobre as luzes que miram minha janela

nem sobre cores
nem sobre o último afago
nem sobre a fúria da multidão
nem sobre o que pensas a meu respeito

“nem às paredes confesso”

apenas declaro o imposto de renda
por obrigatório que é

28/10/2014

João Lopes Filho
TOM

preciso de um tom preciso
exato
assim como tom jobim
podem ser tons de azul
pastéis, cores e tal
tons

tem que ser assim bossa nova
afagos no elevador
tontices
whatsapp, facebook, twiter, nem tanto

que não faltem uns versos
vírgulas para respirar
nem a atmosfera dos sentidos

que não falte este jeito todo seu
de se preparar para as viagens

preciso de um tom exato
preciso, certeiro, um ponto
outros tantos feitiços
e uma idéia batucando na cabeça

e ponto.

25/10/2014

João Lopes Filho
ASSIM

e  assim
enquanto os teus fonemas
dormem lânguidos
e preguiçosos
faço riscos no ar

faço rascunhos
aceno com nuvens brancas
céu azul
e o uísque sour à moda do miro

na dança
cerco teus movimentos
fora da música
fora do tom
até que haja suficiente silêncio
para ressoar o que respiras

e assim
os dias vão ficando sossegados
e assim
vou respirando paz
e assim -
 alheios aos olhos da multidão -
seguimos
assim

20/10/2014
João Lopes Filho

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

MONOSSÍLABO

junto com o sol
que se insinua
a dor percorre a garganta golpeada

ventos frios de um outubro estranho
ainda com segredos
trazem chão e uns versos tolos

as caras do facebook esbanjam
o que lhes falta
sísifo se apresenta e impõe sua ordem
giramos nós
(sempre)
a ressaca eleitoral não dá sossego
as notícias, em avalanche, constroem mitos

a garganta dói
o corpo se amofina
contudo, a alma voa nos altiplanos
e os pés planam

diante de tanta notícia
basta um monossílabo
para que o sol exploda em alegria.

06/10/2014
João Lopes Filho


sábado, 4 de outubro de 2014

CÁLCULOS

capturei fragmentos
dos intervalos entre os silêncios
que você enunciou
é tão pouco!

medi o que pude
calculei
me perdi nas horas
perdi o relógio
as horas não economizam tempo

agora procuro bússolas que se dissolveram
em meio a mensagens monossilábicas
é tão pouco!

04/10/2014

João Lopes Filho
SIM

eu caio das nuvens
neste exílio de mim
onde os fantasmas escapam
da superfície onde laboram

as nuvens se desfazem em gotas
atritando os pêndulos
enquanto cesso os passos
na hesitação
enquanto o relógio espera
um sim.

04/10/2014

João Lopes Filho

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

SETAS

o mundo parece parado aqui
o mundo parece parado
o mundo parece um mundo
de tantas placas a seguir
na construção do passo
do salto
das voltas e voltas
da circularidade sem sair do lugar
um mundo de setas
um mundo de frases agudas
que aguardam se inscrever no ar
o mundo abre as cortinas
e pede um passo
um passo no mundo
no escuro onde pode toda luz.

03/10/2014

João Lopes Filho
QUANDO

o quando se instala
exige um tanto, um passo
excede na medida.
afinal tudo é tão finito!
é
embora não seja
tanto quanto não parece ser.

03/10/2014

João Lopes Filho

sábado, 27 de setembro de 2014

DESFECHO

na cessação da água
o verbo impinge gotículas
para não desesperar,
para que o ar lance nuvens
diante do corpo que escuta
uma palavra que esboce sentido,

que não cesse a alegria,
que os frutos se lancem como dádivas,
que as luas tragam o conforto
de um amor tranquilo, por sorte,
como queria Cazuza.

27/09/2014

João Lopes Filho
ÁGUAS

para Daiane Oliveira

Tudo desafia a gravidade
mansamente.  Águas calmas,
amálgama dos passos dados no mundo.
(Águas calmas). Eu aqui tsunami
diante dos hieróglifos
da vastidão do que não tem nome ainda.

Chegas parecendo praia calma.
desafiando o imperfeito,
a pressa,
um lugar que falta para cada coisa.
(Praia calma...)

Eu tsunami
À espera do próximo vôo,
de transbordar. De um ponto fixo qualquer.
De saber da praia e do que paira no vazio:
tsunami.

Súbito me encontro tsunami. A espera é tsunami.
As ondas rolam matemáticas. As ondas feitas de espaços
vazios,  de entrelinhas e de silêncios
excursionam  exibidas.

Praia calma pode ser  tsunami. Praia calma
pode nem saber onde se finda.
Chegas assim como praia calma sussurrando
o que pode ser.


27/09/2014

João Lopes Filho
INVENÇÃO

lá vem o trem do passado
que espero no vão
de olhos vidrados
no decalque
no breu
em vão:

o trem é depois
é abismo
futuro

o trem é minha invenção
a lápis
rascunho

o trem chega sem relógio
sem bula
sem trilhos
sem sinal

o trem é agora de chegar

13/09/2014

João Lopes Filho
EFEITOS

cabe na taça
tudo
tudo que posso pensar

cabe na taça
nada
nada que posso sentir

cabem as raras palavras
a sua fidalguia
a lenta “pensação”
os olhos atentos a  flutuar
a falta de tudo que falta

cabem na taça
a alegria,
e os olhos que engolem o mundo.

13/09/2014

João Lopes Filho

domingo, 7 de setembro de 2014

INVOLUEME

explique-me
sem titubear
a lógica das tangentes
e dos círculos
o íma da sua presença
a falta do que é nada

explique-me
as reminiscências
do menino perdido
fabricando animais de nuvens
nas tardes tropicais modorrentas

explique-me
porque tudo parece voltar
ao mesmo lugar
porque o infante guerreia
porque o infante chora
porque um traço é um trago
nestas tangentes e círculos.

04/09/2014

João Lopes Filho

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

CONSEQUÊNCIAS

empreste-me suas conseqüências
seus cadernos
seus suores falsos
e os ensaios de viver
para que eu perca o prumo
e  floresça um samba
uma bossa qualquer
a lembrança do que virá
neste chão liso e brilhante.

03/09/2014

João Lopes Filho
SUSTO

da janela que recorta a cidade
e a vastidão
miro as miragens que construo
das nuvens
dos prédios vazios
da réstia de sol
que trazem o teu sorriso

decalco um instantâneo
de mim
sem fotografias acidentais

o anúncio me chama para o chão
e oferece viagens a Paris
eu nem me desfiz da miragem
da fantasia de flanar na cidade
e tomar susto
com tua irrupção
no avesso do mundo

eu mudo
eu puro susto
feliz
tu dizes do amor
do solstício que se vai
e do sol que se inclina sobre mim.

03/09/2014

João Lopes Filho

sábado, 30 de agosto de 2014

TROPEÇO

tropeço
com as palavras pelo chão
enquanto você mira
sem foco
o retrovisor.

30/08/2014

João Lopes Filho

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

ÁTIMO

enclausurei régua e compasso
e esqueci dos pontos cardeais
refém do teu sorriso

a música me embriaga
tu danças
danças
danças
e me ofereces
tudo que teus olhos espelham

fugaz
assim flutuamos
num átimo
um mais um
mais um
mais
mais um passo
reféns do ar que nos falta.

28/08/2014

João Lopes Filho

domingo, 17 de agosto de 2014

DOIS

ensaio
ventos e nuvens
dias de sol intenso
para te dizer:
é tão pouco e tanto

ensaio
velas acesas
marés
e luas
para te dizer:
é apenas e mais além

ensaio
advinhações
charadas
palavras cruzadas
para te dizer:
é tecido e epiderme

ensaio
dicionários
oráculos
pedras
para te dizer:
encanto é germinação

ensaio
andar a esmo por aí
em flutuação
um mais um

17/08/2014

João Lopes Filho
FLUXO

o vento invernal
do pleno agosto
dilui minhas imprudências

da janela do mundo
espreito sua respiração
e canto

canto desafinado
no encalço dos indícios
do tecido dos sonhos
da mão do desejo
da correnteza
da paz que lembro
do que é música que toca o corpo

em pleno agosto
há fluxo
das horas intensas
perfumosas
e ancestrais
há fluxo
do imperfeito passado
do aconchego que vem do futuro.

17/08/2014

João Lopes Filho