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quarta-feira, 15 de maio de 2019


FAGULHA

nitroglicerina nas vísceras
atos disformes diante da forja e do jornal
faziam as paredes falarem

o velho artista na sua fúria
exercitava seus demônios
só aplacados pela poesia fabricada com metais

eram malas
e malas
e malas de histórias
a vida assim era aventura
ficção

os revólveres não disparavam
a ebulição fazia-se dona dos dicionários
quando a caneta como malho
convocava a matemática para a poesia

pai gigante
queria comer os jornais
e já havia decifrado o mundo

  
15/05/2019
João Lopes Filho






segunda-feira, 16 de julho de 2018


ASAS

ganhei asas
nos infinitos sem flâmulas

o jazz arrebenta, castiga, traduz, induz
enquanto as últimas palavras queimam a pele úmida

a medida dos quilômetros
expressa a estrada
ignora o tempo

estrelas tão pretéritas
trafegam acolá
transbordam o pensamento

é tudo que escapa
enlaça
nos lança na imensidão

assim, seu existir tornou-se música
e me desperta todas as manhãs

16/07/2018
João Lopes Filho


COREOGRAFIA

afora o zumbido daqueles insetos malditos
os pés andaram serelepes
retinas guiadas por sorrisos
que desenhei sem rascunho

nada de geografia
nem copo, corpo ou delito
apenas pérolas translúcidas
incandescências
lembranças de âmbar

na crepitação do tempo
se inscreveram uns versos
no amanhecer

João Lopes Filho




sexta-feira, 29 de setembro de 2017

ARMADILHA

a armadilha de todos os dias
se vê na soleira da casa

os fantasmas que deixei atrás da porta
me saúdam festivos
dizem: - Bom dia!
e circulam serelepes nos líquidos do meu corpo

o fogo que acendi se ausentou
como os vagalumes da noite da infância

os mortos, em cujos funerais eu fui, insistem em flanar por aí

soa o alarme do celular:
quantas mortes serão necessárias
para que os mortos que carrego realizem seu destino?

os fantasmas querem brincar
quando a noite já envelhece

eu quero apenas dormir

29/09/2017

João Lopes Filho

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

CORPO

jorram silêncios
na noite que se avizinha da estação das flores

ondas e ondas se erguem molemente
num só-depois a luzir

amoleço o ímpeto:

é a superfície do espelho d’água que se faz pele
por onde navego em fluxo
no oculto das letras

até a próxima hora em que seus olhos forem meu espelho

01/09/2017
João Lopes Filho






quinta-feira, 31 de agosto de 2017

LABAREDA

carrego ainda os andrajos do que fui
da flor que não fluía

esbarro no tempo onde pétala a pétala
o corpo se reconstrói,
até não se reconhecer mais flor

corro até esmorecer
até a linha que não se ultrapassa
desenhada com as chaves da minha gaiola

a cada golpe dos pés sulcando o asfalto
fica um resíduo do que nunca fui:
as facas que me feriam
as lágrimas que mourejavam como pedras
os assombros

a matemática não mais inspira o relógio
o fogo-fátuo fez-se fogos de artifício
com outras invenções no agora das passadas

ergueu-se assim
outra língua feita de ímpeto, ardor e graça

21/08/2017

João Lopes Filho

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

SEMBLANTE

desenho o rascunho
das flores artificiais que ornam
as palavras não pronunciadas

o jorro silábico interminável
sobrepõe todos os sons
sem perceber
o inverno
o sol que não compareceu
as chuvas que desabam

[me calo]

impossibilidade da letra
silêncio como signo
o real irrompe sem adjetivos

germinam na linha que nos ilude ao demarcar o horizonte
os bichos danados
que apenas insinuam seus contornos

14/08/2017

João Lopes Filho

sábado, 12 de agosto de 2017

MANHÃ

as ruas se multiplicam
os transeuntes nada sabem do que procuro

me perco indolente
nas trilhas do mapa
onde não florescem girassóis

no território sob a pele
arrepios são sinais
de que o mundo transborda de si

no subsolo onde algo se esqueceu
brota o que parece ter sido sempre assim
como as sementes que germinam no relento
esquecidas nos olhos alheios

12/08/2017
João Lopes Filho







segunda-feira, 26 de junho de 2017

ESPELHO

a tempestade lhe revolve por inteiro
as explicações se estilhaçam
como meros enfeites de papel
o rio fluxa oposto a si

na contracorrente das urgências
as cores e temporais lhe golpeiam
como ondas gigantes

segue em fluxo luminoso
hóspede do acaso
na sedução das imagens

desanda nas águas
se vê no espelho das águas
nelas imerge
e canta como num último suspiro

a língua afiada no esmeril do devir
lambe as labaredas
como se o hoje fosse tudo que detém nas mãos

João Lopes Filho
26/06/2017

quinta-feira, 8 de junho de 2017

CÂNTAROS

eram cântaros
nem sabia
foi o ressoar da palavra
na estação das chuvas

nos recônditos onde nada se escondia
diante dela que via tudo: cântaros
uma mãe gigante:
comeeira, telha, teto e luz

Chove a cântaros!

a professora anunciou:
oração sem sujeito
verniz do  mundo que se esboçava
naquele passo onde as goteiras eram lúdicas

as feras imaginárias
não frequentavam os dias nublados
apenas o célere compasso das formigas
na sua ordem imutável
e coisas assim como barquinhos de papel

a mãe, lança em riste,
guerreava com o mundo
o mundo era tudo menos entorno

Chovia a cântaros!

João Lopes Filho
08/06/2017

quinta-feira, 18 de maio de 2017

QUIMERA

dos devaneios
o insone deslumbre dos restos diurnos

se sobrepõe a vigília
a contemplar a planície
onde as miragens vão se esmaecendo

ouço as vozes que interrogam o vazio
o arrastar da marcha das multidões
como eco do futuro

agora hibernam no sono letárgico
no rivotril das imagens das telas lacunares
a avalanche noticiosa nubla o sentir
detém a marcha

enquanto os mortos seguem seus destinos
aqueço o coração nos moinhos de vento

João Lopes Filho

18/05/2017
SUSPENSÃO

onde baila a inocência?

na epiderme dos sonos
na noite interminável
nos transfinitos números
numa nesga de tempo

se número
se letra
soletra um raio
que se refaz

baila o que não se sabe de si

João Lopes Filho
2017

 



PEDRAS

aqueles monstros
de súbito me afligem
no sonho

puseram seus pés de ferro
pra ir a um lugar distante
uma viagem

tão pedras
e eu tão sísifo
até outra pedra surgir

João Lopes Filho


quinta-feira, 11 de maio de 2017

ESTALO

olha o horizonte:
o céu vermelho chinês
é uma fera fumegante

a espera já não se contém
se perde no mapa feito a nanquim

põe em jogo o maquinário
para vedar a fúria
antes que o céu queime

é o desejo
flor trêmula
quando toma ares de larva incandescente

11/05/2017

João Lopes Filho

segunda-feira, 10 de abril de 2017

SAGITÁRIO A

ilhados
nesta nave que flutua
entre choros e navalhas
que desliza no nonsense das pregações torpes dos homens invertebrados

giramos à procura da nave-mãe
de uma letra oculta
que nos perturba na sua opacidade

tremei: não há fim à vista!
não há telescópio para ver a si

esboça-se, turvo, o repetitivo
o trânsito ordinário dos insetos
no seu atávico existir
que nos dá distância para dizer: não sou eu

acolá se alinhava
um mar de química a matar crianças
aquelas que morrem por aqui bem perto de nós

escapa o juízo, afinal.

João Lopes Filho
10/04/2017

quinta-feira, 9 de março de 2017

CONFISSÃO

lamento pelo adeus impossível
pelos poemas não lidos
pela porta fechada
pela régua de medir os afetos

montanhas
que imaginei atravessar
e um vento que só trazia maus presságios
na travessia

as ameaças do mundo assombravam a casa
forçavam a porta
as palavras nunca tomavam seus assentos
os silêncios brigavam com as vírgulas

vulcões juvenis
um pulso que nada sustinha
o espelho que captava os olhares furtivos
os verões
as chuvas torrenciais
e tome-lhe comer livros

e as inabaláveis certezas que a conjunção dos planetas
se espichavam nas matemáticas que inventei
as certezas como pedras
e a carga das sílabas por se juntar

lamento pelo adeus impossível

João Lopes Filho
09/03/2017






quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

SANHA

prega palavras na parede
larvas incandescentes
fogo que queima a carne dos viventes

muge qual animal dilacerado
caindo entre as pedras
no torpor da embriaguez de ódio

sentidos embotados
reza para matar

e mata

quando uma canção sinistra sai da sua boca
tragando todo o ar que explode na sua carne envenenada


05/02/2017
João Lopes Filho

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

ZEITGEIST

o sangue escorre pela sarjeta
sem nome
um número na série dos mais uns
não há espanto
só chuva dos olhos em silêncio abismal

emudece o i ching
quando a moeda vira alma
na turbulência dos haveres

a primavera se transmuta em pesadelo
na chuva de estilhaços
sem que se saiba dar os nomes às coisas

pelos gadgets chegam as notícias
do fim do mundo: os corpos retorcidos
pelas  bombas se atrevem nas fotografias: os futuros  se destroçam
sem  mais um segundo a perdurar

as ficções se desintegram
na invenção do tempo
na incerteza de que tudo pode ser bem o contrário

09/11/2016
João Lopes Filho








quarta-feira, 12 de outubro de 2016

CONJUNTO

aqui a primavera
já é

nos sonhos de kurosawa
flutuo entre pétalas
viro haste a vergar-se diante da chuva

balbucio
no branco de doer nos olhos
a mínima música

cultivo a flor
corpo feito do indizível
tecida de perfume e matéria diáfana
alheia ao trânsito das nuvens

a primavera é
sopro

13/09/2016
João Lopes Filho





DERIVA

achas minha prosa desértica
é que não tenho ensaiado andar nas nuvens
nem sentido o cheiro do café às seis da tarde

contudo, a carne vibra quando o vento leste
inaugura tardes novas
e faz a festa dos insetos coloridos

porque há uma hipótese de haver poesia.

16/06/2016
João Lopes Filho

TRATOR

abrigar seus devaneios
enquanto não brisam os ventos
nesta terra devastada
é o que posso amealhar nesta terra árida
onde os bárbaros invadem a casa
e interrompem a festa

nos ergamos
em nossos lugares comuns
ainda aceso o fogo em nossos ossos
até que esta américa
não precise de algemas

andemos em círculo, por ora,
antes que a poeira nos cegue
até que a poesia sirva de arma
contra o obscurantismo

09/06/2016

João Lopes Filho
RÉSTIA

encontro o menino
a perscrutar as partículas de poeira 
atravessadas pela luz

alheio ao relógio
apenas o sol
o tempo infinito


o menino alça vôos
se sustenta 
nas nuvens e no vento
subtraído todo o peso

a poeira suspensa
revelada
surpreende o menino 
em seus ensaios de viver

27/05/2015
João Lopes Filho
MECÂNICA

no tempo sem tempo
do menino
a luminância dos metais
se transfigura em amarelo

os  maquinismos não mais herméticos
os relógios em profusão
não escondem os mistérios do tempo

naquele espaço oracular
os véus se transformam em fogo
 e os metais se fundem
no caldeirão das palavras
e da magia

o menino vive seus dias
ávido dos achamentos
invenções
e devaneios
se inscrevendo na letra
do poema que nada lhe diz

16/06/2015
João Lopes Filho


OFÍCIO

o aço em brasa
fascina
o menino de olhos
e sentidos aguçados
na pletora de tudo que há:

revólveres, anéis, gramofones
máquinas, máquinas, máquinas
motores, ouro e diamantes
metais, cobre e poesia

e o derretimento dos metais

não há metáfora:
não há trégua:
tudo é aço em fúria
na pedreira a desvendar.

16/06/2015

João Lopes Filho
PEDRA

escorrego nas palavras
que não atiro
como pedras

e pesco em águas turvas
o que imagino do seu pensar
até que as palavras deslizam
sem traduzir
sem compor um texto
sem tessitura

sei sem saber
o que mais penso
desse pensar que se repete

é vento sem som
é pião desgovernado
é pedra nas palavras
é um espelho opaco
pedra
pedra nas palavras

10/12/2014

João Lopes Filho
INEXATO

que não me venha com seu amor
a desbotar-se tão rapidamente
quanto uma notícia de jornal

mas se tiver substância pode aportar

pode vir com klimt preso na garganta
e um grito longo no pescoço modigliani
traga suas tralhas,
seus livros,
seus pesos,
seus passos mal dados
junto com suas epifanias nas escadas rolantes

vamos ver a chuva cair sobre nossos delírios
a imaginar corpos que flutuam
sem que a morte os toque
sem pesar pelo que se perdeu

tontos com algum almodóvar
sejamos ondas a passar pela multidão atônita
que apenas esboça seus sorrisos de plástico
com seus dentes de aço
enquanto espera alguma vida na morte em que habita

miró que acampe em nossa galáxia
até que nos percamos ao calcular os dias

15/08/2016
João Lopes Filho








MARÉ

no dia em que tropecei na sua insônia
desconhecia as navegações sem barco
apesar de saber das confusões das marés

o zodíaco rodou sem resposta
assim como o tarô que não fez conexão
quando transgredi seus códigos

song to the siren insinuou-se com as sutilezas
dos olhos que aguardam o sol
nas ruas onde o medo anda a galope
por espaços onde os hermetismos aventam descansar

tão futuro
quanto as marés
que nunca sabem seu destino
assim será
pois os ventos desobedecem toda vã geometria

brinquemos com o vento leste
enquanto eles se distraem com os letreiros que os iludem


07/06/2016

João Lopes Filho
NEXOS

não contava o vil metal
nem se vangloriava da prata e do ouro
não, meu pai contabilizava suas artes

os idílios o traíam
quando o centro dos mecanismos estava a contabilizar o tempo
enquanto algo se diluía na coreografia da fumaça dos cigarros

refugava as hóstias plásticas
se refugiava na dialética sem saber-se contradição
uns dias era relógio e em outros, anos-luz

e dava nomes para a construção do meu dicionário
antimônio, por exemplo

não era época de muitas flores
nem de pousar em nuvens de algodão
mas nunca vi os anos sentarem-se à sua mesa

17/06/2016

João Lopes Filho
LÍQUIDO

movo meus pés
nessa atmosfera mutante
onde os fluxos não desenham caligrafias

o sahara parece habitar
 a rede espessa que do espelho
só reflete o vazio

não há girassóis
nem duendes na praça vazia
onde mil e uma noites de histórias
se esculpem sob os pés

há o mar que circula nas veias
a teimar
em contornar os muros

05/08/2016
João Lopes Filho


LÍQUIDO

movo meus pés
nessa atmosfera mutante
onde os fluxos não desenham caligrafias

o sahara parece habitar
 a rede espessa que do espelho
só reflete o vazio

não há girassóis
nem duendes na praça vazia
onde mil e uma noites de histórias
se esculpem sob os pés

há o mar que circula nas veias
a teimar
em contornar os muros

05/08/2016
João Lopes Filho


GLACIAL

o frio não combina com o mar
nem com a imensidão desta ausência
nem com os pés arrastando no chão
à deriva

o mar é bravo
e está frio a doer nos ossos
a lascar a pele já despida de sua cor

o instante de ver o mar
não ultrapassou para a ventura depois da linha
aqui é só o agora pálido, sem tintas
num torpor que transmuta-se em nevoeiro

os dias se arrastam multiplicados na sua dor
são segundos infinitos que duram como blocos de gelo
que não se sabem eternos

aqui não há o que celebrar
pois a alma está submersa
nesta terra fria e vulgar

os ventos extirparam as palavras
e deram-me um coração de pedra

e fizeram de mim um iceberg
ao sabor dos desejos das ondas
que não conhecem perigo

nesta imensidão desértica
flutuar
talvez como destino
e atravessar este frio até algum lugar aqui mesmo


04/04/2016
João Lopes Filho