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quinta-feira, 19 de março de 2009

O MAR

Imenso mar
A vida escorrega brilhante
Em celebração
Mar das profundezas abissais
Das insularidades
Qualquer palavra não o contém
abismos
Fúria azul.

15.01.2003
FOTOSSÍNTESE

Quero o sol na minha cabeça
Então regurgitarei todas as palavras
Fórmulas
Modas
O mundo nem se lembrará da explosão
Da gênese
Síntese de todas as belezas

Quero o esconderijo do quarto
voltar pra casa
Sacudir a poeira

Kafka que me perdoe
Mas o inseto não sou eu
Sou cores prismáticas
Nas alamedas caóticas
trânsito bárbaro
dinheiro que rola nas ruas
dinheiro que move a política
metáforas
síntese das plantas
O sol nas plantas
Fotossíntese.

23.09.2007

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

EXISTIR

A linha fluídica das horas
Personifica um relógio
Que freqüenta as flores da janela.
O vácuo não recua,
As palavras embriagam meu espírito
Milênios assim.
Nessa circunstância existencial
Seria melhor o silêncio sem palavras.

06.01.2002
BAGDÁ

um papel em branco
é sempre uma tentação
uma fuga
um vazio
meros traços

palavras sem fundo
tomam conta da alma
da aura
da água
das marés
o mundo é composto de palavras

tento na rima fácil subverter
os hermetismos
(iconoclasta)
enquanto as bombas invasoras americanas
destroem a esperança no Oriente Médio.

04.05.2004
FIM

Quando tudo acaba
Vertigem
As palavras bóiam
Num universo de luz diáfana
Pálidas palavras

Quando tudo acaba
Há silêncio instalado
Entre corpos que
Carregam as marcas e avarias
Do caminhar no mundo.

07.01.2006
O BARCO


Velas içadas em mar aberto,
Última peça de um mirante,
Assim ocupo um lugar.

Antes, a força impele-me
À deriva,
À mercê do vento.

Vagalhões decidem sacudir o barco,
Sendo como é,
Sem leme,
Sem direção.

Navego...
Porque navegar é uma ordem impositiva,
Pulsão inexorável.

05.04.97

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

O POEMA DIFÍCIL

Verter a poesia
Destilar o poema
Em versos que se perdem
Na liquidez do dia.
A inspiração falta
A onda não molha a areia
A veia está enferrujada

20.02.98
INTERROGAÇÃO

Uma frase sem sentido,
Um elogio qualquer,
As fugas,
Uma flor que verga
murmuro entrelinhas nas frases
entre linhas tênues
disfarço
me desfaço em gestos
economizo a pulsão
que tempo tenho, então?

30.11.2002
O MAL-ESTAR

vultos amarelos ao longe
são luzes, faróis
na longa estrada
que nunca cessa o movimento

a natureza impera
nos sons da noite

os sentidos plenos
a todo vapor
desafiam os costumes
o mal-estar se instala
a natureza derrota a cultura
ou mescla-se com ela
num ponto qualquer
da via de passagem
para lugar nenhum
para qualquer lugar

2005
REFLEXOS

Reflexos da minha imagem
No vidro da mesa
Contra um colo
Reproduzem meu rosto em sombras
Sem contornos
Sem lmites
Indefinido
A aura paira boiando sobre o vidro
Acima da tinta e do papel
O sentido se esvai
A alma se estilhaça
Enquanto se reconstrói
A palma da mão
O destino contém
A palma é o passado
Se refletindo no futuro.

14.12.1997
PORTO

viver emoções superlativas
tragando o amargo sabor
de certas horas
é viver
e acreditar

fragmentos da alma
desespero
tempestade

haverá sempre o porto

o reagrupamento das partículas.
BANALOGIA

sua voz reverbera
me relança no passado
nem tão distante
nem tão ausente

tua presença
tem alegria e dor
tem festa

mas afinal o que fazer
se não sei?
e o riso, este disfarce,
mostra tudo que você
quer esconder?

não trago comigo
nenhum segredo
nem sei porque escrevo este
poema banal.

10.01.1995
RESÍDUOS MODERNOS

a poeira paira
acima das nossas cabeças
as cinzas
poluem o éter

um caminho de (im)possibilidades instala-se
o futuro desliza

02.03.1998

domingo, 25 de janeiro de 2009

MOVIMENTO II

Enquanto a prata colore meus cabelos
A fissura da alma atravessa a rua
A criança explode, eclode, voa
Enquanto a rima, por acaso, soa

Andam estrelas
Voam pedras
Sambam amores

Nestas ruas lavadas de suor
As máquinas rangem,
As máquinas nos acham estranhos

O coração acelera, volátil
Está escrito nas faces:
O amor é demodée.

26.01.2003

sábado, 24 de janeiro de 2009

SUTILEZAS



O tormento das horas
Chega com a tarde
Com o sol a se por
Com a noite entrando pela janela
Na confusa mistura entre noite e dia
A palavra treme
Vem rasgando a garganta
Até converter-se em bálsamo
Que aplaca a sede da alma

A alma plana
A alma anda
A alma arfante
Exulta de alegria e liberdade
Brincando com as correntes
Que insistimos em não ver.


05.05.2004

ABRAÇO

Num único abraço
celebrar a vida.
Abraçar o universo
em lilases,
róseos,
plúmbeos também.
Aspergir música
na garganta do vulcão.


16.l0.97

VERDADE

Corro em direção ao espaço infindo
os pés não marcam o chão
A água cai sobre a cabeça

Enquanto tudo dorme
Enquanto sonho
Enquanto beijo o chão

Quanto tempo há até que tudo se desintegre
E a verdade, algum fragmento,
Seja vislumbrada por nossas cegueiras?

Enfim, andemos!

Mas, quantos sóis passarão ainda?


26.01.2003

HORIZONTE LOGO ALI



Você dá sinais de que o horizonte é logo ali
Idas e vindas do vento,
Como as nuvens que se ajuntam,
Assim são seus passos.
As entrelinhas revelam
O que sua face confirma.
O horizonte é logo ali

Logo ali
nuvens e vento
Calmaria, perigo, enfim.

Assim a dúvida se instala lentamente.

24.12.2002

ACASO



Na escritura do verso
me devolvo um eu repartido,
recortado.

A fixidez transmuta-se volátil
através da porta escancarada
que suga as fronteiras.

Sem território,
desconhecendo o lugar dos limites,
atenho-me
a míseras aventuras.

O acaso faz seu império.

02.02.98

RUMOR


Mora ao longe um rumor
Que abala a flor
A flor move o mundo
Mora aqui
A flor da vida
Eterno conhecer
Até descobrir o ignorar.

27.07.2005

O LIMO E AS PEDRAS



O limo e as pedras
imóveis na bica
transparecem a aparente imobilidade
causada pela ausência de suor humano
Nada os move,
exceto o vento escasso
nesta tarde invernal.



2002

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

DANÇA DO TEMPO



Estes obscuros objetos de cena
Acompanham os passos
Do tempo que avança

Dança, senhor, dança
Passeia pelos espaços
Voa
Surdo senhor
Tempo que assovia
Atrás do vento

Que rima com a morte
Que geme com os bichos
Que pesa mesmo leve
Que se insinua
Que grita
Que fala
Que escala a cama
Que exaure a alma
Que canta

Canta senhor das tréguas
Dormita sorrateiro
Feito de dança e movimento

Volteia nesses obscuros objetos
Que acenam com o olhar
Golpeia, tempo
A carne carcomida
A pele alva e o ar.

05.05.2004

O corpo transita
trespassado pela inquietação.
pela pergunta

interrogações demais
vazios
pouco tempo

pouco tempo
para respostas.


31.07.1999

SAMBISTAS

Abram suas mentes
Que um samba doido vai passar
Abram os olhos
Deixem o movimento
Entrar nas suas almas
São as máquinas
Todas lotadas de sensações
Ensinando os homens
A cantar, dançar, rimar
Como nunca se viu

Máquinas na pista
Homens dançando
Porque as máquinas é que trabalham

Agora a vida é festa, desejo, paixão
Máquinas e homens em comunhão
É samba.

31.07.2004

CONSTATAÇÃO

Passos e passos
nossos rumos iguais
se perdem.

Poses,
vislumbres de luz
em algum ponto incerto

Ouço vozes
nos gestos das águas
no sorriso das naturezas-mortas

As fotografias
exalam o cheiro
do profundo inacabado
tempo interior.

09.05.1986

PALAVRAS

Palavras
a crua cara
da fala
da larva
dos meteoros


11.05.1985

NOTURNO

na esquina da rua
no cruzamento de vias
eis um gato
que não diz nada
porque não há perguntas.

há luz
que agora vibra
e o gato olha pro céu
talvez lamente
a solidão da noite
as horas andam rápidas...
talvez festeje a liberdade
a suprema atitude
de vagar pelas noites
e amar nos telhados.

05.11.1985

NOTÍCIA

Te espero
nunca te vejo

te ouço
por outras bocas

tu vibras
através das cordas vocais
do pássaro que passa.


04.03.85

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

FALSO

Tudo parece falso
entre brilhos e perfumes
a troca de olhares,
os cheiros,
a fumaça,
a música,
a louça.
Tudo parece falso
tão pouco profundo,
uma inflação de gestos inúteis,
uma sucessão de passantes.
Tudo parece falso
Tudo parece nada
Tudo é nada
Tudo falso.




PASSOS

ensaio passos
que não dou
no tempo estabelecido
depois aprendo
que não há tempo
nem espaço
então, disfarço
e me desfaço.

16.04.1994

ACONTECIMENTO

De repente
murcham as flores
e saímos loucos pelas ruas
em busca
do elo perdido
perdidos
na fumaça.

MÁGICAS

A ereção
a íris sã
e o bolero de Satã.
Mágicas que faço
no espelho
só para ensaiar
as nossas horas vãs.

24.01.1987

ACORDAR

Lúcido alvorecer
De um novo dia
Quando o remo foge
A lua esconde-se
E o mar ao longe
Desconecta as profundezas abissais da mente.

2002

O TEMPO DANÇA

Estes obscuros objetos de cena
Acompanham os passos
Do tempo que avança

Dança, senhor, dança
Passeia pelos espaços
Voa
Surdo senhor
Tempo que assovia
Atrás do vento
Que rima com a morte
Que geme com os bichos
Que pesa mesmo leve
Que se insinua
Que grita
Que fala
Que escala a cama
Que exaure a alma
Que canta
Canta senhor das tréguas
Dormita sorrateiro
Feito de dança e movimento

Volteia nesses obscuros objetos
Que acenam com o olhar
Golpeia, tempo
A carne carcomida
A pele alva e o ar.

05.05.2004

BAGAGEM

Cada dia
diferente há de ser
Mesmo que tudo se repita
na bagagem que carregamos
na bagagem que esquecemos.

23.12.1984

ELETRODOMÉSTICO

Brota uma palavra
Nua
Qualquer
Quase tudo
Quase nada
A onda tenebrosa
Dissipou-se
Enquanto nos alegramos
Com as fantasias
Da máquina de inércia
Que nos filtra um mundo
Que nos tira os mundos
Que constrói o nosso mundo.

27.07.2006

VIDA

A vida
A vida escorre
A vida trafega no vácuo
Enquanto olhamos o trem feito de lembranças.


2002

domingo, 18 de janeiro de 2009

INTRODUÇÃO



(...) certamente o homem
está fora de órbita
ou em órbita
em torno de si mesmo
apenas...
09/12/86

BRUMAS


Brumas
O pensamento atordoado
Cipoais de ilusões
Sinto, o medo vem à tona
Falta
Das teorias que explicam tudo
Da explicação cabal do mundo.

JOGO

Quando digo
Escondo
Quando grito
Amalgamo as fúrias
De toda a existência.

COTIDIANO II

Tanta fúria
se é preciso
só prazer.
Tanto grito
se é mesmo
só amar.
Assim vivemos
e morremos
diariamente.

22.07.1984

COTIDIANO

A voz ao longe sugere uma longa batalha

AS FLORES AMARELAS

as flores amarelas que cristina trouxe
iluminaram o meu coração
as meninas e os meninos, com suas palmas
curaram dores e mágoas

flores
cores
o amarelo, o amarelo, o amarelo
o amarelo das flores

as flores amarelas de cristina
lavaram a minha alma
outras almas foram lavadas junto

a alma das flores fez minhas pernas perderem o prumo
o coração disparou
com as flores de cristina
amarelas como o sol
flores amarelas dos leoninos
flores para joão, o menino

meninos e meninas numa apoteose de sons
das palmas das mãos num choque ritmado
lavaram minha alma
rito de passagem
ritual coletivo, tribal
para exorcizar dores e mágoas
afirmando cores, nuances, idéias, crenças

cristina, a menina que trouxe consigo
as outras meninas e os meninos
cristina e o mel das palavras
lançando as asas que continuarão comigo
viva cristina,
viva os meninos e as meninas

e assim sigo vivendo
confirmando os caminhos, os propósitos
na ressaca da emoção
cristina, as meninas e os meninos de pé
pela educação
que merece carinho e cuidado
viva Cristina
viva as meninas
viva os meninos.

02.02.2007

AÉREO

Sinto a vertigem do trânsito dos carros
E dos pensamentos
Reviravoltas, ondas, marés
Uma moda nos bafeja
Outra moda acena do horizonte
O universo dos carros causa vertigem
O pensamento

a sucessão de pensamentos
Um universo à parte
Carros,
Pensamentos,
Movimentos paralelos,
E o mundo continua inexplicável.

23.08.2007

A POEIRA DAS ESTRELAS

A poeira das estrelas
Ai de nós!
impulsiona um destino
Que não sabemos a causa
Nem o depois
O destino tece
Nos tece
Elastece
E prolonga o drama da existência.

25.02.2007

DESEJO

Avanço na rede
À espera de ser fisgado
Nestes dias quentes

na rede me lanço inutilmente
toque
tique
truque

a lembrança daquilo que não é memória
inscreve-se na minha pele

as músicas epidêmicas que inundam o ar
beijam-me no calor deste dia tórrido
nestes trópicos nordestinos
um pouco aquém do mar
mas quase lá
antes que o coração dispare a voar.

26.01.2003

ABALO

A fala abala
A rala cadência
Dos insensatos.

Os atos
Os restos do papel
Cedem à tinta

A chuva
congela no ar.

11.05.97

FACA

A faca
farsa
Faça a diferença emergir
no limbo das explanações
no evaporar das máscaras.
Adelante!


04.05.97

sábado, 17 de janeiro de 2009

PALAVRAS


Persigo a palavra
da qual não me liberto-
ela que não se deixa enclausurar.
Daqui por diante
quero apenas palavras!
Quero dobrá-las,
contorcê-las,
fazê-las significarem.
Atarei as palavras aos objetos.
O concreto,
o ideal,
a emersão do eu unificado dar-se-á.
Que doce exercício inútil
só comparável à poesia.
Perseguem-me as palavras,
quando penso que as possuo.


09.03.97.

TEMPO II


De soslaio
O tempo nos mira
Nos espera
Inevitável
Incognoscível
Impreciso
Estático
resistente